Proibição das Bets no Brasil

Bets: quando apostar deixa de ser diversão. O que acontece quando o jogo passa a ocupar espaço demais na vida? Entre a promessa de ganho e a perda de controle, a saúde mental também entra em jogo.

Lúcia Jamilly Oliveira de Morais

10/1/20264 min read

5 impactos positivos da proibição das bets no Brasil.

Em setembro de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória nº 1.394, que determina a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das chamadas bets no Brasil. A medida alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line.

A discussão sobre as bets, entretanto, vai muito além da questão financeira. Nos últimos anos, as apostas on-line passaram a ocupar espaço significativo na rotina de muitas pessoas, especialmente por meio dos celulares, das notificações, dos bônus e da possibilidade de apostar a qualquer hora. O próprio Ministério da Saúde passou a tratar o uso problemático das apostas como uma questão de saúde pública.

Mas o que acontece quando apostar deixa de ser apenas uma diversão?

O que é ludopatia?

A ludopatia, também chamada de Transtorno do Jogo ou jogo patológico, é um transtorno do comportamento aditivo. Ela se caracteriza, principalmente, pela dificuldade persistente de controlar o comportamento de jogar, mesmo diante das consequências negativas provocadas por ele.

Não se trata simplesmente de “gastar dinheiro demais” ou de uma pessoa que não sabe administrar suas finanças. O problema envolve uma relação de perda de controle com o jogo.

A pessoa pode passar cada vez mais tempo pensando em apostas, aumentar os valores apostados, tentar recuperar perdas com novas apostas e continuar jogando mesmo quando o comportamento começa a prejudicar sua vida financeira, profissional, familiar e emocional.

E é justamente nesse ponto que a discussão sobre a proibição das bets encontra a saúde mental.

1. Menor exposição a um comportamento potencialmente aditivo

A facilidade de acesso é um dos aspectos que tornam as apostas on-line particularmente preocupantes. O celular permite que a aposta esteja disponível praticamente a qualquer momento.

Com a retirada das plataformas autorizadas e da publicidade, reduz-se uma parte importante dessa exposição cotidiana. Isso não significa que o transtorno do jogo desapareça, mas pode diminuir a disponibilidade constante de um estímulo que, para algumas pessoas, já se tornou difícil de controlar.

2. Redução da publicidade e dos estímulos para apostar

A MP também proíbe ações de comunicação, publicidade, propaganda, marketing e patrocínio relacionados às apostas de quota fixa.

Isso é relevante porque a publicidade não apenas informa que determinado serviço existe. Ela também pode associar as apostas a entretenimento, sucesso, esporte, pertencimento e possibilidade de ganho.

Reduzir essa presença no cotidiano pode contribuir para diminuir a normalização das apostas e, consequentemente, a exposição de pessoas vulneráveis ao comportamento de jogo.

3. Menos prejuízos financeiros com repercussões emocionais

O problema das bets não termina quando o dinheiro é perdido.

Dívidas, conflitos familiares, ocultação de gastos, sensação de fracasso e tentativas repetidas de recuperar o dinheiro perdido podem produzir intenso sofrimento emocional.

O uso problemático das apostas pode estar associado a ansiedade, depressão, alterações no sono e no humor, conflitos familiares, isolamento e prejuízos nas relações pessoais e profissionais.

Reduzir a exposição às apostas pode, portanto, funcionar como uma medida de prevenção de uma cadeia de prejuízos que ultrapassa o campo financeiro.

4. Proteção de pessoas em maior situação de vulnerabilidade

Nem todas as pessoas que apostam desenvolverão um transtorno. Mas determinadas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas relacionados ao jogo.

Dados apresentados pelo Ministério da Saúde apontam que, em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa, enquanto 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático.

Nesse sentido, uma política que reduz a disponibilidade e a publicidade das bets pode ser compreendida também como uma medida de prevenção, especialmente para pessoas que já apresentam dificuldade de controle.

5. A saúde mental passa a ocupar espaço nessa discussão

Talvez um dos efeitos mais importantes seja justamente ampliar a compreensão de que apostar compulsivamente não deve ser reduzido a uma questão de falta de responsabilidade ou de força de vontade.

O transtorno do jogo é uma condição de saúde mental e pode demandar cuidado profissional.

Por isso, falar sobre as bets também é falar sobre sofrimento psíquico, relações familiares, endividamento, isolamento e perda de controle.

A proibição das bets, por si só, não resolve a ludopatia. Pessoas que já desenvolveram uma relação problemática com o jogo podem continuar necessitando de acompanhamento e cuidado.

Quando é hora de buscar ajuda?

Se as apostas começaram a ocupar seus pensamentos, comprometer suas relações, causar dívidas, provocar sofrimento ou fazer você sentir que perdeu o controle, não é preciso esperar que as consequências se tornem ainda maiores para procurar ajuda.

Buscar acompanhamento psicológico não significa fraqueza. Significa reconhecer que existe um sofrimento que merece ser escutado e compreendido.

A ludopatia pode ser tratada, e o primeiro passo pode ser justamente falar sobre aquilo que, muitas vezes, foi vivido em silêncio, culpa ou vergonha.

Se você ou alguém próximo está enfrentando dificuldades relacionadas às apostas, procure ajuda profissional. Cuidar da saúde mental também é reconhecer quando não precisamos atravessar determinadas situações sozinhos.

Lúcia Jamilly Oliveira de Morais - CRP 11/17901

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