Por que mudar parece tão difícil?
Por que, mesmo sabendo que algo precisa mudar, às vezes continuamos repetindo os mesmos caminhos? A psicanálise nos ajuda a olhar para aquilo que insiste, revelando como a repetição pode dizer algo sobre nossa história e abrir espaço para novas possibilidades.
Lúcia Jamilly Oliveira de Morais
10/4/20263 min read


Por que mudar às vezes parece tão difícil?
Às vezes sabemos que alguma coisa em nossa vida precisa mudar. Percebemos que determinada relação não nos faz bem, que um comportamento nos prejudica ou que estamos vivendo situações que já não queremos sustentar.
Mesmo assim, mudar pode ser difícil.
Isso acontece porque nem sempre nossas escolhas são guiadas apenas por aquilo que sabemos ou desejamos conscientemente. Existe uma dimensão de nós mesmos que não dominamos completamente: o inconsciente.
É justamente nesse ponto que a psicanálise nos convida a olhar para a repetição.
Quando fazemos de novo aquilo que não queríamos repetir.
Freud se dedicou a compreender situações em que uma pessoa parece reencontrar, de diferentes maneiras, experiências que lhe causam sofrimento. Em Além do princípio do prazer (1920), ele desenvolve o conceito de compulsão à repetição, mostrando que determinados acontecimentos podem retornar mesmo quando não produzem prazer.
Isso nos ajuda a pensar sobre situações bastante comuns.
Alguém termina uma relação que lhe fazia mal e, algum tempo depois, percebe que está vivendo uma dinâmica semelhante. Outra pessoa muda de emprego, mas continua se sentindo presa ao mesmo tipo de conflito. Há ainda quem reconheça determinados comportamentos em si e, apesar disso, tenha dificuldade para interrompê-los.
Não se trata simplesmente de falta de vontade.
A repetição aponta para algo que pode estar além da decisão consciente.
Por isso, diante de uma situação que insiste, a pergunta pode deixar de ser apenas “por que eu faço isso?” e passar a ser também: “o que essa repetição pode estar dizendo sobre mim?”
O que se repete pode mudar de cenário
Lacan retoma a questão freudiana da repetição e a articula ao funcionamento do inconsciente.
Na vida cotidiana, a repetição nem sempre aparece de maneira evidente. Ela pode mudar de cenário, de pessoas e de circunstâncias, mantendo, ainda assim, alguma lógica semelhante.
Podemos escolher pessoas diferentes e experimentar relações com conflitos parecidos. Podemos mudar de ambiente e continuar ocupando determinadas posições diante dos outros.Isso não significa que nossa história determine completamente nossas escolhas. Significa que existe algo de nossa trajetória que participa da maneira como nos relacionamos com o mundo.
É nesse sentido que a repetição pode se aproximar do sintoma: uma formação que insiste e que pode expressar algo que ainda não encontrou outra forma de elaboração.
O que a terapia/análise pode possibilitar?
A análise não funciona como um manual para ensinar alguém a mudar seus comportamentos.
O trabalho analítico acontece pela fala e pela escuta. Ao falar sobre suas experiências, o sujeito pode começar a estabelecer relações entre acontecimentos, escolhas, desejos e conflitos que antes pareciam desconectados.
Aquilo que era apenas vivido pode começar a ser pensado.
Uma escolha pode ganhar outro significado. Uma reação aparentemente automática pode despertar uma pergunta. Uma situação recorrente pode deixar de ser vista apenas como algo que “sempre acontece comigo”.
É nesse movimento que uma possibilidade de mudança pode surgir.
Não porque o passado seja apagado, mas porque a relação do sujeito com sua própria história pode se transformar.
Mudar não é apagar quem fomos
Existe uma ideia de que mudar significa abandonar uma versão antiga de nós mesmos e começar novamente.
Mas talvez não seja assim.
Nossa maneira de amar, escolher, trabalhar e nos relacionar foi construída ao longo de uma história. Há marcas das experiências vividas, das relações estabelecidas e das palavras que recebemos ao longo da vida.
A análise não pretende apagar essas marcas.
Ela pode possibilitar que elas sejam revisitadas, compreendidas e ressignificadas a partir da posição que ocupamos hoje.
E isso pode fazer diferença.
Talvez a mudança comece antes da mudança
Nem sempre uma transformação começa com uma grande decisão. Às vezes, começa quando algo que parecia natural passa a causar estranhamento. Quando percebemos uma repetição. Quando conseguimos formular uma pergunta que antes não existia.Quando deixamos de procurar apenas uma solução imediata e começamos a nos perguntar sobre o que está por trás daquele sofrimento.
É por isso que a psicanálise dá tanta importância à fala.
Ao colocar em palavras aquilo que nos atravessa, podemos encontrar sentidos que antes permaneciam ocultos. E, quando algo pode ser escutado e elaborado, abre-se a possibilidade de uma posição diferente diante da própria vida.
Talvez mudar não seja deixar de ser quem somos, mas descobrir que não precisamos permanecer exatamente no mesmo lugar.
Lúcia Jamilly Oliveira de Morais - CRP 11/17901
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